“Sem investimento em políticas públicas, o Estado brasileiro empobrecerá junto com a população e não terá condições de mitigar as causas que levarão pessoas a desenvolver mais doenças e a morrer mais precocemente”. A previsão é do sanitarista Paulo Buss, diretor do Centro de Relações Internacionais da Fiocruz e ex-presidente da Fundação. Nesta entrevista, ele comenta a contradição entre a política de austeridade fiscal determinada pela Emenda Constitucional 55 (EC 55) e a garantia da saúde como direito de todos, conforme preconiza a Constituição Federal. “Hoje, a política fiscal favorece os ricos e sobrecarrega os pobres, pois está centrada no consumo das famílias e não sobre as grandes riquezas. Enquanto o modelo de desenvolvimento vigorar sob essas condições, as pessoas vão perder qualidade de vida, vão adoecer mais e o sistema de saúde terá menos condições de atendê-las plenamente”, afirma.

Em 2030, a população mundial demandará 80 milhões de profissionais de saúde, enquanto 65 milhões estarão no mercado de trabalho. A estimativa, que reforça a análise da crise global da força de trabalho em saúde, identificada em 2006 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é resultado do estudo “Projeções globais do mercado de trabalho em saúde para 2030”, publicado recentemente no periódico internacional “Recursos Humanos para a Saúde”. Para o médico Mario Roberto Dal Poz, pesquisador do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e colaborador da rede Brasil Saúde Amanhã, mudar este cenário é possível. Dal Poz atuou por 15 anos como coordenador de Recursos Humanos em Saúde da OMS e, nesta entrevista, defende que o problema tem solução. “Em um cenário otimista, a reorganização do modelo de atenção à saúde pode gerar ganhos de produtividade capazes de reduzir substancialmente o déficit projetado para a força de trabalho. O maior desafio é direcionar investimentos para aumentar a produtividade: na gestão, na formação, no uso de tecnologias, no modelo de atenção”, afirma.






A inovação em saúde não é neutra

segunda-feira, 06, fevereiro , 2017 por

“Garantir o acesso universal da população ao sistema de saúde e às novas tecnologias disponíveis não será possível sem democratizar os processos inerentes à dinâmica de inovação na Saúde”. A afirmação é da especialista Lais Costa, que integra o Grupo de Pesquisa em Inovação em Saúde da Fiocruz e investiga os cenários futuros para a democratização do acesso à saúde por meio da inovação. O tema recebeu atenção especial do periódico Cadernos de Saúde Pública, com o lançamento, em dezembro de 2016, do suplemento “Saúde, desenvolvimento e inovação no Brasil”. Nesta entrevista, Lais explica como os processos de desenvolvimento e incorporação de novas tecnologias estão alinhados ao projeto de desenvolvimento nacional, que pode ser orientado por interesses neoliberais ou pelas demandas sociais. “A tendência, no cenário atual, é a intensificação da exclusão. Em outras palavras, mantendo-se a falta de prioridade para o setor Saúde, a escassez de investimentos, o aumento da demanda e a adoção de trajetórias de inovação que favorecem a exclusão social, não há como ser otimista”, declara.






Editorias

“O desafio é claro: a população brasileira está envelhecendo, demandará cada vez mais cuidados assistidos e o Estado não tem, hoje, uma política de apoio e suporte para essas pessoas. Se seguirmos este caminho, o resultado será uma desigualdade ainda maior no acesso à saúde, justamente no momento da vida que requer mais atenção”. A conclusão é da médica Deborah Malta, uma das coordenadoras da PNS 2013. Nesta entrevista, ela comenta as principais conclusões do maior inquérito populacional sobre saúde já realizado no Brasil e aponta tendências preocupantes para o futuro, como a intensificação das doenças crônicas e a necessidade de mais investimentos e ações intersetoriais. Deborah alerta: “É preciso antever a ‘cidade do futuro’ e somar esforços da Saúde, da Educação, da Assistência Social, dos Transportes, enfim, de todos os setores da sociedade, para que o cuidado aos idosos se desenvolva de forma integral”.






Garantia à saúde requer gastos públicos

segunda-feira, 16, janeiro , 2017 por

“Para que o Brasil volte a crescer, é inevitável expandir os gastos públicos, por meio de uma política contracíclica”. A recomendação é do pesquisador Carlos Pinkusfeld Bastos, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em dezembro, o economista participou do seminário “Desenvolvimento, Espaço Fiscal e Financiamento Setorial”, organizado pela rede Brasil Saúde Amanhã, em parceria com o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE). Nesta entrevista, Bastos explica porque o cenário atual – de restrição externa, reduzido crescimento dos gastos públicos e do PIB, deteriorização dos indicadores sociais e ausência de política industrial – impõe, para as próximas décadas, perspectivas de crescimento que não são otimistas. “As sociedades que prosperaram aumentaram seus gastos em bens e serviços públicos. Não há saída para o Brasil, hoje, que não seja pelo gasto público”, defende.






Regionalizar para universalizar

segunda-feira, 09, janeiro , 2017 por

“Como garantir o acesso à saúde em escalas territoriais muito pequenas?”. Para a médica mexicana Asa Cristina Laurell, pesquisadora do Centro de Análisis y Estudios de Seguridad Social, este é o dilema que impõe tantos desafios à regionalização dos sistemas de saúde. A pesquisadora, uma das mais representativas da Medicina Social na América Latina, participou do seminário “Desafios da Regionalização e Conformação de Redes de Atenção em Contexto de Crise e de Desigualdades Territoriais”, realizado em dezembro de 2016 pelo Departamento de Administração e Planejamento em Saúde da Ensp/Fiocruz. Nesta entrevista ela aponta os desafios para a garantia da equidade no SUS e as ameaças da agenda neoliberal à garantia da saúde como direito. “Os sistemas de saúde são um terreno de luta política e ideológica”, defende.






Ciência de Dados e a prospecção de futuro

segunda-feira, 28, novembro , 2016 por

Big data, machine learning, deep learning, wearables. O desenvolvimento tecnológico traz, para o dia a dia de pessoas e instituições, novidades capazes de alterar profundamente rotinas e processos. No setor Saúde não é diferente. O Icict/Fiocruz inova nesta direção ao lançar a plataforma Ciência de Dados Aplicada à Saúde. Nesta entrevista, o idealizador da inciativa, o pesquisador Marcel Pedroso, do Laboratório de Informação em Saúde do Icict, comenta as suas contribuições para os estudos de prospecção estratégica do futuro. “Implementamos o conceito de Plataforma como Serviço (PaaS — Platform as a Service), ou seja, nossa plataforma oferece um serviço de Ciência de Dados, área do conhecimento construída a partir da convergência de três grandes expertises: a estatística e matemática; a ciência da computação; e o domínio científico do objeto em estudo – neste caso, a Saúde”, explica Marcel.






“Condições socioeconômicas influenciam diretamente a incidência e a mortalidade por alguns tipos de câncer. Pensar em investimentos centrados exclusivamente no setor Saúde é estar fadado ao insucesso. As necessidades de saúde exigem ações intersetoriais”, ressalta Enirtes Melo, pesquisadora da Ensp/Fiocruz. Em entrevista, ela comenta os desafios de médio e longo prazo para a Atenção Oncológica, considerando a concorrência das doenças crônicas não transmissíveis e as enfermidades evitáveis, mais comuns entre as populações pobres. “Prospectivamente, não advogo a favor de cenários pessimistas para as políticas sociais no Brasil. Penso em um cenário intermedário, marcado pela tensão entre a política social e a econômica. Entretanto, mesmo nesta perspectiva, o SUS está fortemente ameaçado”, adverte.






Intersetorialidade para promover a saúde do idoso

segunda-feira, 31, outubro , 2016 por

“O envelhecimento saudável começa no pré-natal”. É assim que a psicóloga Angela Castilho, do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, da Ensp/Fiocruz, chama atenção para a importância da integralidade na atenção à saúde do idoso. Dia 25 de outubro, Angela participou do seminário “Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa: desafios da implementação”, promovido pelo Icict/Fiocruz. Na ocasião, apresentou a palestra “Capacitação da Atenção Básica e da Gestão: superando desafios na área do envelhecimento”. Nesta entrevista, ela aponta os desafios para a atenção integral à saúde do idoso no horizonte dos próximos 20 anos e alerta: “Se o modelo hospitalocêntrico, centrado na doença, persistir, o SUS não terá condições de garantir a atenção à saúde do idoso com universalidade, equidade e integralidade”.






“O desafio que enfrentamos hoje está menos relacionado à proporção de idosos que teremos em 2030 e mais com a definição do modelo de sociedade e de sistema de saúde que queremos”. Esta é uma das questões levantadas, nesta entrevista, pela socióloga Dalia Romero, pesquisadora do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), onde lidera o grupo Informação e Pesquisa em Envelhecimento e Saúde do Idoso. Compreendendo o envelhecimento da população como um fator de sucesso, a especialista ressalta a importância dos estudos prospectivos de futuro: “É fundamental comparar modelos de sociedade para que possamos decidir coletivamente, por meio de um pacto social, qual caminho vamos todos seguir”.






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