Fiocruz, futuro e democracia

por / segunda-feira, 02 outubro 2017 / Categoria Notícias, Prospecção Estratégica, Todos

Um posicionamento radical contra as desigualdades na sociedade brasileira e por uma assertividade na ética e no respeito com a coisa pública e com as alteridades nas práticas cotidianas do fazer saúde, ciência e política, culminando numa nova dimensão da cidadania. Com uma fala emocionada e contundente, Gastão Wagner de Sousa Campos, professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp) e presidente da Abrasco, foi um dos debatedores da mesa “Efeitos da Recessão Econômica (e seus remédios) sobre a Saúde e o Futuro do SUS”, realizada na manhã de quarta-feira, 27 de setembro, dentro da programação de seminários preparatórios para o 8º Congresso Interno da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O auditório do Museu da Vida ficou totalmente ocupado por dirigentes, pesquisadores e servidores técnico-administrativos de diversas unidades da Fundação que foram ouvir e prestigiar as falas de Gastão Wagner e de Rômulo Paes de Souza, epidemiologista, especialista em avaliação de políticas públicas e diretor do Centro Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (Centro RIO+). Na abertura, Zélia Profeta, da Comissão Organizadora do Congresso Interno, e Marco Menezes, vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fundação – representando a presidente Nísia Trindade, ausente por motivo de viagem oficial – destacaram a atividade como parte do compromisso da Fiocruz em discutir seu papel como instituição pública do Estado. “Temos a certeza de que o aprofundamento de nossas ligações com os movimentos sociais, com os diversos segmentos da sociedade civil organizada e em afinação com o controle social da saúde são fundamentais para o cumprimento da missão institucional de nossa Fundação”, falou Menezes.

Primeiro a se apresentar, Rômulo Paes de Souza discorreu sobre seus recentes estudos dedicados a fazer uma revisão sistemática – e, a partir desta, construir predições e prognósticos – das consequências das políticas de austeridade sobre determinados indicadores epidemiológicos, fatores de risco e determinantes. “Os impactos da austeridade vão além do plano meramente econômico, mas também nos perfis sociais, nos determinantes macrossociais e nas lógicas de prestação de serviços e de políticas públicas, com efeitos que vão para além do presente, estendendo-se para o futuro”, recorrendo a conceitos trabalhados por autores como Janet Roitman (2013) e Sotiria Theodoropoulou e Andrew Watt (2012), entre outros.

Paes de Souza frisou quão errônea é a ideia de que basta a retomada de investimentos para uma recuperação econômica. Como exemplo, reportou um estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que calculou o intervalo de 15 anos para a recuperação dos níveis de investimento do continente na crise da década de 1980, enquanto a redução nos índices de pobreza provocados pela mesma crise exigiu 25 anos para o retorno aos patamares anteriores. “Os efeitos da crise, dependendo das escolhas econômicas feitas, podem se prolongar sobre o futuro de gerações inteiras”, disse o epidemiologista.

A força de um projeto que enfrente as desigualdades: No dia de celebração dos 38 anos da Abrasco, Gastão Wagner iniciou sua participação saudando o público presente, o legado da Associação, a Fiocruz, como exemplo de instituição público com compromisso social e que pode dar certo, e reforçou o convite e o desafio de organização do 12º Congresso brasileiro de Saúde Coletiva, a ser realizado em julho de 2018, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e na Fiocruz.

Em diálogo direto com a fala de Rômulo Paes de Souza, Gastão ressaltou que a reativação do afluxo de capitais não resolverá em nada o cenário econômico e político brasileiro sem a discussão de outras matrizes de pensamento nas quais o desenvolvimento econômico não seja a única resposta. “O crescimento econômico não vai resolver o problema do Brasil, não vai salvar o SUS. Esse crescimento não foi uma alternativa à desigualdade que persiste em nosso país e que provoca uma aceleração na degradação dos serviços e das políticas”, continuou o presidente da Abrasco, relacionando a distância do Brasil de 2/3 da população, que tem renda média de até 1 ½ salário mínimo e o terço de renda superior restante. “Essa população alijada dos ganhos econômicos não está inerte. Toda a sociedade reage, seja com violência, seja com o questionamento às desigualdades tanto do poder político como do poder econômico. O ressentimento, a mágoa e a decepção com a política também são reações, são fruto da cronificação da desigualdade”.

Gastão Wagner ressaltou a necessidade de a Saúde Coletiva, bem como o conjunto da sociedade escolham o caminho da luta e do posicionamento político sem conciliações com atores que apostam nas saídas meramente econômicas. “Acredito que essas coisas que tenho falado vão acontecer a médio, longo prazo. Vimos recentemente que não basta ganhar, mas sim ter um projeto. A gente vai apresenta-lo, vamos perder, mas não tem problema. É importante nossa capacidade de compor alianças, com diálogo e paciência, mas para garantir a defesa das políticas públicas como ferramenta de enfrentamento às desigualdades, e não ao contrário”, disse o docente, convocando a radicalidade da luta contra as desigualdades sem nunca perder a dimensão amorosa na compreensão das alteridades, no diálogo com as demais pessoas e segmentos sociais. “Nós que construímos o SUS no dia a dia temos de ter essa capacidade de se autorregular, sem perder a dimensão ética. Somente assim conseguiremos resolver nossos problemas sem precisar recorrer à justiça, e valorizar a democracia, o diálogo, a gestão participativa”.

 

 

Fonte: Abrasco

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