“Para tratar a Covid-19, temos que tratar da saúde urbana”, afirma José Noronha

O presente e o futuro das grandes metrópoles frente à crise sanitária de Covid-19 foi o tema da mesa de abertura do “Ciclo Cadernos Metrópole – Difusão Científica e Temas Emergentes”, realizada dia 5 de agosto em formato virtual. O evento marcou o lançamento do dossiê número 52 da revista Cadernos Metrópoles, intitulado “Metrópole e Saúde”, organizado pelo sanitarista José Noronha e o geógrafo Ricardo Dantas, ambos pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) que integram a iniciativa Brasil Saúde Amanhã. O “Ciclo Cadernos Metrópole – Difusão Científica e Temas Emergentes” acontece até 16 de setembro, com encontros on-line toda quinta-feira, a partir das 16h, no canal do Observatório das Metrópoles.

Nesse primeiro encontro, a apresentação do dossiê “Metrópole e Saúde” ficou a cargo da editora científica da revista Cadernos Metrópole, Lucia Bógus, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Além dos pesquisadores do Icict/Fiocruz, participaram do debate o urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Nabil Bonduki, e o pesquisador da Universidade de Lisboa, Roberto Falanga. A mediação foi feita pelo coordenador nacional do Observatório das Metrópoles, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Saúde, desigualdades sociais e a Covid-19

Durante a apresentação, a Covid-19 foi colocada em pauta como parte de um ciclo de epidemias de origem animal que se manifestam ao redor do mundo desde o início dos anos 2000, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), em 2003, e os vírus ebola e zika, em 2014 e 2016, respectivamente, sem descartar a possibilidade de futuros ciclos epidêmicos pós-Covid. “Tendo em vista as consequências do crescimento de organizações sociais baseadas na acumulação de um capital infinito, tornou-se também necessária a reflexão sobre políticas sanitárias e urbanas que deem conta de garantir bem-estar social frente às desigualdades resultantes do liberalismo desenfreado”, afirmou Lúcia.

Dantas, que coordena o Projeto Avaliação do Desempenho do Sistema Saúde (PROADESS) no Icict/Fiocruz, destacou que para pensar políticas públicas de saúde para as cidades brasileiras é imprescindível um olhar para o futuro. “Sobre as chamadas desigualdades vitais, a diferença se ampliou tanto nas últimas décadas que há um recrudescimento dos gaps entre populações de alta e baixa renda, o que impacta nas condições e expectativa de vida de pessoas de uma mesma cidade. Se vamos enfrentar futuras e novas pandemias, como podemos estar preparados para entender e enfrentar essas desigualdades?”, ponderou. 

“Uma questão dramática na expansão da Covid-19 são os transportes coletivos sobrecarregados e a necessidade que alguns têm de sair de casa em busca de renda, pela falta de uma política de renda mínima que seja suficiente, sem contar o desemprego. Assim, as pessoas se tornam incapazes de cumprir o protocolo mínimo para controle da doença, que é o modelo clássico de controle de epidemias: a capacidade de identificar um caso e promover isolamento. Para tratar a Covid-19, temos que tratar da saúde urbana”, concluiu Noronha.

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