Revolução digital e transformações na Saúde

por / quarta-feira, 30 setembro 2020 / Categoria Notícias, Prospecção Estratégica, Todos

Inteligência artificial, big data, internet das coisas e outras tecnologias que promovem mudanças nas formas como as sociedades se organizam foram pauta do seminário on-line “Revolução Digital e Saúde: Contextos, Aplicações, Riscos”, realizado no dia 24 de setembro pela Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 com o apoio da iniciativa Brasil Saúde Amanhã. O evento foi transmitido em tempo real pelo canal da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz no YouTube e contou com a mediação do pesquisador Marcelo Fornazin, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz).

Na abertura do evento, o coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, o sanitarista Paulo Gadelha, enfatizou a oportunidade do debate diante da emergência de Covid-19, que tem agregado novos elementos em diversas áreas e vem, assim, reconfigurado o mundo contemporâneo. “O tema Revolução Digital, incluindo seus impactos imediatos no setor Saúde, requer uma atuação permanente da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, sempre em associação com a iniciativa Brasil Saúde Amanhã, em termos de pesquisa e avaliação de suas interações. Certamente, teremos outras oportunidades próximas para aprofundar e complementar essas discussões”, ressaltou Gadelha.

O coordenador executivo da iniciativa Brasil Saúde Amanhã, José Carvalho de Noronha, mencionou que a transformação digital atinge, de maneira devastadora, todos os segmentos vinculados à organização do sistema de cuidados e que a pandemia tornou evidente o grande desafio de se pensar o futuro – missão que a iniciativa abraça há 10 anos, com a prospecção de cenários para a Saúde Pública brasileira no horizonte móvel de 20 anos. “Estamos atentos às influências positivas e negativas que podem se impor sobre as condições de saúde da população brasileira e na organização de nosso sistema de cuidados. Para tanto, temos feito uma revisão ensaística de todas as iniciativas que tomamos ao longo da última década, para nos orientar nessa reflexão de futuro sobre o sistema de saúde”, destacou Noronha, que é pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). 

O evento foi organizado em quatro painéis temáticos, seguidos de breves comentários de pesquisadores da Fiocruz: Manoel Barral Netto, da Fiocruz Bahia, e Angélica Baptista Silva, Fernando Verani e Leonardo Castro, da Ensp/Fiocruz.

Visões da transformação digital

Pesquisador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), o advogado Christian Perrone apresentou os principais aspectos conceituais e regulatórios da Revolução Digital e seus impactos para a sociedade, propondo uma reflexão sobre o futuro da Saúde e da Medicina com a digitalização. Ao tecer uma análise crítica sobre o quadro atual, buscou identificar as tendências de futuro a partir de desafios e riscos, tais como a personalização e monitoramento, a Medicina de Precisão, a gadgetização da saúde, a datatização das escolhas, a interação homem-máquina, a internacionalização da medicina, dentre outros. “Cada uma dessas tendências carrega conceitos próprios da Revolução Digital e a pedra de toque de toda essa transformação é justamente os dados, sejam eles pessoais ou sobre o estado de saúde, que impactam transversalmente nos sistemas de saúde”, considerou Perrone. 

Sobre os efeitos das tecnologias na sistemática de saúde, Perrone explicou que a quantidade de dados que os profissionais de saúde acumulam sobre seus pacientes ainda é restrita, mas que no futuro será possível ampliar esse monitoramento, personalizando a compreensão de saúde, o diagnóstico e o tratamento, com base em uma série de dados – tendência que o pesquisador define como gadgetização da saúde

Telemedicina e telessaúde

As possibilidades de uso das tecnologias em serviços assistenciais, diagnósticos e terapêuticos, bem como as perspectivas de desenvolvimento de tecnologias de telemedicina e telessaúde, foram apresentadas pelo professor Chao Wen Lung, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Em sua exposição, Lung fez um convite a pensar sobre uma possível “Telemedicina Conectada”, ao se remeter à Medicina Digital, à Sociedade 5.0, à logística e aos cuidados integrados, fazendo referência à integração das profissões de saúde pelo cuidado.

Diante de tantas questões que a transformação digital é capaz de gerar, Lung afirmou existir apenas uma saída: a educação. Nesse sentido, o pesquisador resgatou o período histórico da Revolução Industrial para mostrar que todas as vezes em que o investimento em educação ocorreu depois do advento de novas tecnologia houve sofrimento social. “Hoje estamos em meio à Revolução Digital e não investimos apropriadamente em educação. Deixamos a tecnologia chegar na frente. Se não quisermos passar pela dor social, precisamos acelerar o processo de formação dos profissionais e das pessoas, para que criem maturidade crítica sobre o uso das tecnologias e tenham discernimento para diferenciar o que realmente é tecnologia de mudança efetiva ou apenas de camada de custo sem necessidade”, pontuou o professor. Ao finalizar sua palestra, Lung ressaltou que “a pandemia tem nos alertado que temos um recurso disponível – a tecnologia – para prover cuidados humanizados e ampliados. Se queremos fazer uma boa saúde, precisamos nos reinventar, com qualidade, ética e segurança”.

Epidemiologia e Vigilância em Saúde

As possibilidades de uso de tecnologias digitais na dimensão populacional, nas áreas da Epidemiologia e Vigilância em Saúde, foram apresentadas por Diego Xavier, pesquisador do Icict/Fiocruz à frente do projeto Big Data. Considerando as experiências e iniciativas de monitoramento da pandemia de Covid-19, é evidente o adiantamento da Revolução Digital, com impactos nas formas de se relacionar em diferentes segmentos, como comércio, indústria, entretenimento, educação, convívio familiar, entre outros. Tudo isso vai impactar diretamente a saúde da população e precisamos estar preparados para lidar, de forma epidemiológica, com essas questões”, ponderou Xavier.

Ao mencionar alguns desafios impostos pela pandemia de Covid-19, o pesquisador citou a adaptação do trabalho ao home office, as aulas remotas, o desemprego em massa e as perdas de segmentos econômicos inteiros. No que se refere ao campo epidemiológico, Xavier disse ter sido preciso criar indicadores capazes de acompanhar toda a dinâmica imposta pela Covid-19. “Destaco três aspectos fundamentais durante a pandemia: a inteligência artificial, o big data e a internet das coisas. São instrumentos essenciais, que apresentaram crescimento na comunidade científica devido à emergência da Covid-19”, explicou Xavier. 

Implicações e riscos das tecnologias na Saúde

No último painel, Fernanda Bruno, coordenadora do MediaLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), abordou as implicações sociais e os riscos associados às tecnologias digitais e os aspectos ligados à privacidade e concentração de dados, assim como iniquidades e exclusão social. Fernanda apresentou os resultados parciais recém divulgados da pesquisa “Economia Psíquica dos Algoritmos: racionalidade, subjetividade e conduta em plataformas digitais”, realizada por pesquisadores do MediaLab da UFRJ.

O estudo mostra uma análise detalhada de 10 aplicativos de autocuidado psicológico utilizados no Brasil, procurando identificar o modo como os dados psicológicos, emocionais e comportamentais vêm alimentando algoritmos, plataformas e aplicativos digitais. Segundo Fernanda, o mercado de aplicativos está em ampla expansão, registrando, no Brasil, durante o período de pandemia, mais especificamente no mês de março, na área de “Saúde e Fitness” um aumento exponencial de 226% em instalações com direcionamento de anúncios e 116% sem tais encaminhamentos. Sobre os aplicativos voltados para o bem-estar psíquico, a estimativa é que existam em torno de 10 mil aplicativos disponíveis.

“No discurso e nas ferramentas desses aplicativos, observamos que o sofrimento psíquico e a terapêutica proposta estão fortemente centrados no indivíduo. É importante salientar a falta de transparência e clareza sobre o tipo de dados que esses aplicativos coletam sobre os usuários e os destinos deles, tanto no compartilhamento com terceiros, quanto nas suas finalidades e utilizações”, alertou Fernanda.

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