O CEIS e o sistema de Saúde brasileiro

por / segunda-feira, 25 agosto 2014 / Categoria CEIS, Notícias, Notícias, Todos

O Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS) é o foco do quinto volume da coleção “A Saúde no Brasil em 2030”. Intitulado “Desenvolvimento Produtivo e Complexo da Saúde”, o livro integra cinco capítulos que versam sobre as tendências e desafios do CEIS e de seus subsistemas. Os textos consideram, ainda, suas dinâmicas de inovação e suas relações com a proposta de modelo de desenvolvimento que se pretende para o Brasil.

O CEIS é um referencial teórico que associa o desenvolvimento econômico à lógica sanitária e tem por princípio a saúde como par virtuoso do desenvolvimento. O conceito foi desenvolvido na Fiocruz e pondera que a dinâmica da área da saúde conjuga crescimento econômico, mudanças na estrutura produtiva e melhoria das condições de vida da população.

Porém, os textos destacam que, para garantir o aspecto virtuoso da saúde, é preciso garantir, além do fomento às indústrias, a regulação voltada para critérios sociais e inclusivos. Pois, somente desta forma será possível constituir um modelo de desenvolvimento socialmente justo para o país e conquistar, assim, a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Carlos Gadelha, um autor recorrente nos textos e atual secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, “A Saúde tem o potencial de gerar, no século 21, o dinamismo econômico que o petróleo produziu na economia brasileira no século 20” (Portal Saúde, 2013). E explicou, em entrevista concedida, em 2013, ao portal Determinantes Sociais da Saúde, a importância de se abordar a dimensão econômica da saúde:

“Essa questão é central. Muitas pessoas pensam que o CEIS é uma visão mercantil. Ao contrário, precisamos entender como as empresas se comportam na saúde, como é que o capital se comporta na saúde. (…) Quando entendemos como funciona a lógica privada, a lógica do capital na saúde, podemos ter uma melhor política pública para orientá-los para o objetivo social. (…) Precisamos ter uma política pública para orientar o CEIS para a necessidade social. Como fazemos isso? O Ministério da Saúde coordena hoje uma política que era classicamente considerada econômica, a Política Industrial, Tecnológica e de Desenvolvimento para a área da Saúde. Então, na hora que a área social coordena essa política, temos uma chance de subordinar a base produtiva àqueles objetivos que o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa. (…) ou seja, invertemos o modelo. Conhecendo bem o Complexo Econômico Industrial e como se dá a reprodução econômica para dentro do campo da saúde, conseguimos formular políticas públicas específicas para dar a direção dos investimentos públicos e privados na área da saúde.” (DSS, 2013)

            A importância do CEIS está posta. O Complexo envolve um conjunto de atividades relacionadas à saúde que tem uma dimensão na economia, na indústria farmacêutica, na indústria de equipamentos e materiais e nos serviços de saúde. Ou seja, todo um sistema produtivo e econômico interdependente que gera emprego e renda e responde por parcela significativa do PIB. Assim, o CEIS tem um peso significativo na economia brasileira e grande potencial para incrementar a estrutura produtiva do país e, também, para direcioná-la às necessidades sociais da saúde.

No primeiro texto do volume, “A dinâmica de inovação e as perspectivas do CEIS para a sustentabilidade estrutural do sistema de saúde brasileiro”, Gadelha et al. (2013) exploram o CEIS a partir da observação de que o Complexo agrega à saúde uma dimensão econômica e lhe confere caráter de vetor de crescimento e desenvolvimento. Porém, os autores chamam a atenção para o crescente déficit da balança comercial do CEIS. Esse fato indica a fragilidade da base produtiva e tecnológica brasileira. Portanto, compromete a oferta universal de bens e serviços de saúde e, consequentemente, deixa vulnerável a política de saúde.

Segundo Gadelha et al. (2013) “… urge orientar o desenvolvimento tecnológico para que tenha um caráter mais equitativo (…) A grande questão, neste contexto, é saber como induzir a taxa de progresso técnico e como definir a sua direção, ou seja, como fazer com que o progresso técnico siga rumos socialmente desejáveis e sustentáveis” (Gadelha et al. 2013, p. 24).

Dessa forma, considerando o CEIS um lócus privilegiado do sistema produtivo, os autores examinam os seus segmentos de forma articulada, a partir do modelo do Sistema Nacional de Inovação em Saúde  (SNIS). A intenção foi a de perceber a sua possível capacidade de influenciar a consolidação do sistema universal de saúde e a orientação do desenvolvimento brasileiro.

Para tal, destacam duas características do contexto político institucional vigente, que precisam ser levadas em consideração: o subfinanciamento e as mudanças sócio-sanitárias. Essas mudanças são resultado da melhoria dos determinantes sociais da saúde, em conjunto com o envelhecimento da população, e impactam as questões referentes ao subfinanciamento. Contudo, também oferecem oportunidades de desenvolvimento da base produtiva e de novos mercados ainda não explorados nacionalmente.

A partir dessas considerações e da observação de alguns programas federais – como o Mais Saúde, na área da saúde; o PAC da Inovação, do Ministério da Ciência e Tecnologia; e o Política de Desenvolvimento Produtivo, do Ministério da Indústria e Comércio Exterior – os autores consideram que o caráter estratégico do CEIS está consolidado e presente na agenda de desenvolvimento de diversos setores.

Os autores também destacam alguns problemas no contexto do Complexo, como a possibilidade da capacidade produtiva não conseguir atender as novas demandas e, com isso, comprometer o desempenho do sistema de saúde. Esse risco impõe o desafio de associar a consolidação e ampliação da capacidade produtiva com estratégias de inovação e capacitação pautadas pela lógica social.

Inferem a importância de superar os nós históricos que preveniram a consolidação do sistema de proteção social universal desejado e a competitividade de seu sistema produtivo. Desses, destacam quatro aspectos, decorrentes do modelo de desenvolvimento brasileiro que se reproduziu na saúde.

O primeiro seria a especialização brasileira em bens de pouco teor tecnológico e valor agregado. O arcabouço normativo impõe entraves aos investimentos no desenvolvimento de novos produtos, gerando pouco conhecimento com pouca densidade de pesquisa e desenvolvimento. Assim, o Brasil tem um baixo padrão de inserção produtiva no cenário mundial e na divisão internacional do trabalho, que lhe conferem o caráter de pouco desenvolvido. Na saúde, o exemplo seria o déficit de, aproximadamente, US$ 10,2 bilhões do CEIS, em 2012 (Gadelha et al 2013, p.25).

O segundo aspecto relaciona-se ao fato de o Estado de Bem-Estar não ter se estruturado consistentemente no país, abrindo espaço para o crescimento do mercado privado e a consolidação de um sistema de saúde dual e desigual. O terceiro, diz respeito à fragilidade do pacto federativo brasileiro: sua falta de coordenação das competências de cada esfera administrativa de governo, relacionada à prestação de serviços públicos em geral, e somada à crise fiscal que gerou desigualdade regional na oferta de serviços de saúde.  A quarta questão está associada às desigualdades sociais e regionais. Estas impactam distintamente a incidência de doenças e o acesso universal aos serviços de saúde no que e refere ao cuidado, à promoção e à prevenção.

Para os pesquisadores, essas questões não podem ser ignoradas pois colocam em risco o fortalecimento da base produtiva e inovativa da saúde, pautada pelas necessidades sociais. Além disso, prejudicam a inserção estratégica da saúde na agenda política do desenvolvimento brasileiro e afetam a consolidação SUS.

Gadelha e Costa (2013) listam algumas iniciativas para que a saúde permaneça na agenda nacional. Por exemplo: “as parcerias para o desenvolvimento produtivo (PDP), visando internalizar a produção de fármacos no país; a lei 12.401/2011,que permite o uso do poder de compra do Estado de forma mais sistêmica; a lei 12.349/2010 (…) que prevê margem de preferência de até 25% para a compra de produtos nacionais; o apoio à inovação pelos produtores públicos e à rede de laboratórios oficiais; a crescente articulação da política de assistência farmacêutica para a transformação da base produtiva nacional de medicamentos; e a realização de investimentos de grande importância para fortalecer a base nacional de conhecimento em saúde” (Gadelha e Costa 2013, p. 26)

E sugerem ações práticas:

“A consolidação da presença de C&T na agenda da reforma sanitária e institucional.

O uso estratégico, do ponto de vista do desenvolvimento nacional, do poder de compra do Estado, e não apenas de forma racionalmente econômica.

A regulação dos aspectos normativos da saúde de maneira que o marco regulatório consiga articular produção, inovação e acesso de maneira virtuosa.

A modernização dos laboratórios públicos, por meio de alterações na estrutura de gerenciamento, tendo o Estado como alavanca da inovação e do desenvolvimento da produção brasileira.

O equilíbrio entre as empresas nacionais, privadas e públicas, e empresas estrangeiras no mercado nacional. A orientação é a de substituir a dependência pela cooperação, de modo que o mercado brasileiro não se desnacionalize.

A regulação da incorporação tecnológica no sistema de saúde, por meio da convergência de uma agenda de pesquisa com as necessidades coletivas em saúde.” (Gadelha e Costa 2013, p. 26)

Os textos seguintes abordam discussões sobre cada subsistema do CEIS, considerando três cenários possíveis para 2030. O primeiro, regressivo, representa uma perda na demanda e na estrutura de oferta de saúde no país. No segundo, inercial, o padrão de desenvolvimento tecnológico brasileiro se mantém e não alcança os demais países na corrida tecnológica. O terceiro cenário, otimista, demonstra um salto de qualidade tecnológica e de aproximação do Brasil com os países mais desenvolvidos.

Os autores destacam que, dos três cenários, o terceiro é o mais favorável. Porém, é o menos plausível, pois considera uma reforma ampla do Estado e de sua base fiscal. O segundo cenário seria o mais provável. Porém, a lenta geração de inovação e a baixa densidade tecnológica brasileira podem vir a torná-lo regressivo, semelhante ao primeiro.

Seguindo com os subsistemas do CEIS, no segundo texto, “Indústrias de base química e biotecnológica voltadas para a saúde no Brasil: panorama atual e perspectivas para 2030”, Vargas et al. (2013) analisam as tendências e desafios dessa indústria. O objetivo é o de avaliar as oportunidades de inserção do país na indústria farmacêutica global; as articulações entre a base produtiva e inovativa dessa indústria e as demais do Sistema Nacional de Saúde; e as possíveis ‘janelas de oportunidade’ decorrentes de segmentos tecnológicos estratégicos para o progresso do segmento farmacêutico e biofarmacêutico brasileiro.

Os autores explicam que, no cenário internacional, a indústria farmacêutica mundial é um oligopólio cujas empresas que lideram o setor são de grande porte e globalizadas. A diferenciação dos produtos tem por base o esforço de Pesquisa e Desenvolvimento  (P&D) e o marketing estabelece segmentos particulares de liderança de mercado, como o das classes terapêuticas. Outras características dessa indústria seriam: os medicamentos de marca têm baixa elasticidade-preço da demanda; a competição não se dá via preços; e o monopólio das vendas dá-se em função das patentes. Do ponto de vista global, essa indústria teve um crescimento importante marcado pela concentração industrial, lucros excepcionais e a combinação de crescimento no consumo de medicamentos aliado ao aumento de preços.

Dentre as oportunidades dessa indústria, têm-se:

“A exploração de novos caminhos científicos e tecnológicos particularmente no tocante ao impacto potencial da biotecnologia, não somente na inovação em processos de P&D, mas também em produtos.

A existência de diversas iniciativas no âmbito das políticas de C&T de esforço das capacitações inovativas nacionais que favoreceram a indústria farmacêutica em particular.

A entrada em vigor do Acordo de Propriedade Intelectual (TRIPS) no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), no final da década de 90, que implicou no reconhecimento de patentes farmacêuticas por um grande número de países, entre eles o Brasil.” (Vargas et al. 2013, p. 36)

E como desafios:

“A crescente pressão competitiva associada aos medicamentos genéricos diante de um cenário de expiração de patentes de medicamentos líderes de venda.

O aumento na pressão pelo controle com gastos públicos em saúde nos países desenvolvidos teve como resultado a discussão e adoção de políticas públicas na área, nomeadamente, intervenções que permitissem a redução dos preços dos medicamentos.

O efeito combinado do novo approach de C&T e do novo ambiente regulatório que significou custos de P&D crescentes”. (Vargas et al. 2013, p. 36)

Vargas et al (2013) esclarecem que esses desafios impuseram um reposicionamento estratégico à indústria farmacêutica que não mudou nem a sua estrutura, nem o padrão de competição em vigor. Na realidade, eles tendem a revitalizar os líderes desse mercado e seus modus operandi.

Dois aspectos do padrão de concorrência e organização produtiva e inovativa desse setor destacam-se neste cenário. O primeiro, a crescente importância dos mercados emergentes nas vendas do setor farmacêutico, consequência do contexto de expiração de patentes e da gradativa diminuição da produtividade das atividades de P&D.

O segundo é proveniente das diferentes pressões competitivas que as empresas desse setor enfrentam devido ao alto grau de internacionalização e da crescente concentração industrial das últimas duas décadas. As causas seriam os processos de fusão e aquisições que acarretaram num aumento substancial da participação dos maiores grupos no mercado mundial.

Os autores ressaltam que, nesse contexto um dos desafios para o desenvolvimento do CEIS, no Brasil, é a elevada assimetria nos gastos globais em P&D, uma vez que este processo aumenta o hiato tecnológico entre a indústria global e a nacional. Chamam a atenção para a importância das políticas públicas e a necessidade de adequação dos processos regulatórios considerando que as mudanças no ciclo de P&D e desenvolvimento tecnológico de biofármacos necessitam de processos de comprovação de eficácia e segurança e apoio à inovação da indústria.

Dentre as sugestões, os autores colocam: “a revisão da Lei de Inovação no tocante à transferência de resultados da universidade para a empresa, definição e implementação de política industrial para o setor, criação de mecanismos e incentivos à inovação, sobretudo para a pequena e média empresa, estabelecimento de política tarifária para produtos farmacêuticos acabados importados e flexibilização do controle de preços” (Vargas et al. 2013, p. 65). Além disso, condicionam a possibilidade de reduzir o déficit estrutural na balança comercial e de fomentar o nível de capacitação produtiva e tecnológica da indústria de base química e biotecnológica em saúde à política macro industrial de saúde e seus impactos no CEIS.

Dentre as perspectivas de crescimento do mercado farmacêutico brasileiro, inferem que o aumento sustentado nos gastos públicos com saúde, no decorrer dos últimos anos, estimulou o crescimento dos investimentos nos segmentos que formam a indústria de base química e biotecnológica associada ao complexo da saúde. Portanto, é fundamental a construção de alternativas, em termos de políticas públicas, para que a base produtiva em saúde, no Brasil, melhore o seu padrão de inovação e possa articular o desenvolvimento dessa indústria com a política de saúde e com a demanda de bem-estar social.

Quanto ao subsistema de equipamentos e materiais médico-hospitalares e odontológicos, Maldonato et al. (2013), destacam no terceiro texto, “O subsistema de base mecânica, eletrônica e de materiais do complexo econômico industrial da saúde: perspectivas para 2022/ 2030”, a tensão entre a lógica da indústria e a sanitária.

Essa indústria apresenta um dinamismo calcado na relação entre o desenvolvimento tecnológico e a ampliação da demanda e dos serviços de saúde. As empresas disponibilizam novos equipamentos direcionando a demanda dos serviços de saúde à incorporação desses equipamentos e tratamentos, enquanto essa mesma incorporação estimula a inovação, impondo melhorias aos equipamentos. Esse processo também inclui a prática clínica que, ao ser exercida, identifica as possibilidades de melhorias dos equipamentos. Soma-se, ainda, o fato de que essas tecnologias são complementares e cumulativas. Por exemplo, a ressonância magnética não excluiu o uso da tomografia computadorizada em testes de diagnóstico.

Ou seja, a lógica dessa indústria acaba por fomentar os gastos com serviços de saúde e, por conta das pressões pelo controle dos gastos públicos e privados, os parâmetros determinantes nos avanços tecnológicos das empresas dessa indústria são a eficiência e o custo na utilização desses equipamentos.

 Os autores comentam que uma das características desse setor é o fato das empresas localizadas no Brasil serem subsidiárias de grandes multinacionais, sujeitas às decisões e estratégias globais. Elas produzem e exportam a partir do Brasil, mas dependem da importação de produtos com alto grau de complexidade tecnológica, conforme o crescente déficit da balança comercial dessa indústria, o que é um obstáculo a superação da vulnerabilidade internacional e uma ameaça a sua capacidade competitiva.

 Para esse subsistema, Maldonato et al. (2013) consideram a aposta mais provável a de um cenário inercial, para 2030. A premissa principal é de um crescimento errático da indústria nacional de equipamentos e materiais médico-hospitalares e odontológicos, associado a um desempenho similar quer da economia internacional, quer da brasileira, com a manutenção dos gastos públicos em saúde nos níveis atuais. Por outro lado, trazem também a incerteza quanto à capacidade de articulação da política macroeconômica e industrial, com os requerimentos críticos do CEIS e, particularmente, do segmento de base mecânica, eletrônica e de materiais.

No entanto, os autores destacam que essa indústria é geradora de inovações. Demanda e incorpora avanços tecnológicos provenientes de outras indústrias igualmente inovadoras, como as de microeletrônica, mecânica de precisão, química e novos materiais. Mantém interrelações dinâmicas no interior do CEIS e no contexto da economia como um todo. Por isso, tem o potencial de promoção do adensamento do sistema nacional de inovação e de ampliação da competitividade da indústria. Portanto, as iniciativas governamentais de apoio ao seu desenvolvimento darão frutos efetivos a longo prazo e, num futuro desejável, construirão vantagens competitivas em determinados nichos de mercados.

No texto seguinte “Análise do subsistema de serviços em saúde na dinâmica do Complexo Econômico-Industrial da Saúde”, Costa et al. (2013) observam os serviços de saúde a partir de dois aspectos. Como uma resposta social aos problemas e necessidades de saúde e como um serviço incluído no setor terciário da economia, dependendo de processos que atravessam os contextos do Estado e do mercado.

Os autores discorrem sobre a necessidade de entender os componentes, os custos e as dinâmicas de um sistema de saúde para não comprometer a sua sustentabilidade frente às mudanças epidemiológicas e demográficas e à necessidade de desaceleração dos gastos em saúde. Dentro dessa perspectiva, um dos principais desafios enunciado é o da superação do modelo cuja porta de entrada é o hospital.

Os hospitais representam 50% dos gastos na prestação dos serviços de saúde e desempenham função central nos sistemas de saúde. Sendo assim, o formato de sua inserção em um novo modelo de atenção integrado é um tópico que merece ser analisado. Além disso, os hospitais geram inovação em saúde e têm caráter estratégico no âmbito do CEIS e, também, na agenda mais ampla de desenvolvimento nacional.

Os autores notam que, no Brasil, a crescente ênfase nas ações de Atenção Básica aliada a programas do tipo Programa Saúde Família (PSF) contribuem para reestruturação SUS e para a definição da Atenção Básica como porta de entrada do sistema de saúde. Mas esclarecem que a reestruturação da infraestrutura hospitalar será uma preocupação, pois ela não foi condizente com as necessidades observadas nos últimos anos, no país.

Apesar do avanço do acesso da população ao sistema de saúde, outro desafio que persiste no país é a questão das desigualdades sociais. Ela é agravada pela falta de apoio político ao SUS por parte da população e pela fragmentação do sistema de saúde. A situação mostra-se ainda mais complexa considerando, ente outros, os interesses privados na saúde e o financiamento do SUS.

Atualmente, o tema do financiamento está em voga, no Brasil e no mundo, por causa da transição demográfica e das inadequações observadas nos modelos de atenção e nos critérios de incorporação tecnológica. No caso brasileiro, os autores  ressaltam que o patamar de financiamento público é incompatível com um sistema que pretende ser universal, integral e equânime.

As análises seguem e, dentre as conclusões, apontam que em 2030 a integração da rede de atenção poderia se facilitar pela introdução de novas tecnologias que permitam variações no formato da prestação de cuidados. Essas tecnologias facilitariam novas modalidades de assistências como o hospital-dia e o diagnóstico remoto e novos tipos de serviços, como a atenção domiciliar, configurando um sistema de atenção mais individualizado. A alteração no escopo hospitalar, o adensamento tecnológico extra hospitalar e a mudança do formato da prestação dos serviços contribuiriam para a migração da porta de entrada para a Atenção Primária.

No entanto, os autores destacam que as desigualdades observadas na prestação de serviços em saúde não podem ser solucionadas sem uma reforma política com foco na superação de obstáculos macropolíticos diversos; sem a efetivação da coordenação da atuação das três esferas de governo; e sem a recuperação do papel dos governos estaduais. Além disso, reconhecem, dentre os maiores desafios para o SUS, no futuro, a capacidade de majorar o financiamento público da saúde e a definição de como estabelecer os reembolsos feitos pelo sistema privado ao sistema único quando seus clientes utilizam a rede pública.

Por fim, o último texto do volume – “Infraestrutura científica e tecnológica para apoio ao CIES – segmento biofarmacêutico” – revela que a infraestrutura científica é fraca no Brasil porque não é demandada pelas empresas do CEIS, que praticamente não desenvolvem P&D. Desse modo, considerando um cenário inercial, em termos de inovação, a tendência seria uma distância maior entre os países emergentes e desenvolvidos, em 2030.

Quental et al. (2013) explicam que as atividades brasileiras de pesquisa científica e tecnológica estão no âmbito do Sistema Nacional de Pós-Graduação e  que a diretriz política de Ciência e Tecnologia (C&T) na segunda metade do século XX, no Brasil, privilegiou a formação de recursos humanos, especialmente doutores.

Destacam também que os resultados dessas pesquisas em saúde estão concentrados na região sudeste do país. Entretanto, não se convertem em inovações e, consequentemente, não chegam à sociedade. Inferem que no CEIS a situação é semelhante. Como as empresas brasileiras do Complexo têm baixo interesse na atividades de P&D como forma de inovação, a academia se volta à pesquisa básica e não avança nesse processo ao ponto de desenvolver novos produtos e processos, se afastando da indústria.

Apontam como elo fraco nos processos de desenvolvimento de novos produtos, na área da saúde brasileira, os ensaios pré-clínicos que objetivam a comprovação da eficácia e segurança de drogas descobertas antes de testes em humanos. E, como etapa mais cara e demorada desses processos, os ensaios clínicos para fins de registro de medicamentos.

Os autores colocam que os investimentos em P&D das empresas do CEIS crescem lentamente e, por isso, não alavancam o desenvolvimento da infraestrutura envolvida. Portanto, o crescimento seria baixo até 2030, caracterizando um cenário inercial, e necessitaria de ações estratégicas para incentivar a infraestrutura em P&D e privilegiar o caráter sistêmico da inovação.

Para modificar esse cenário e alcançar uma situação desejável e viável, Quental et al. (2013) sugerem ações estratégicas que aproximem a indústria das universidades ou de empresas prestadoras de serviços de P&D. Esse processo também levaria em conta, por exemplo, a criação de parcerias público-privadas para a criação de prestadoras de serviços e fornecedoras de insumos nesse contexto de pesquisa e desenvolvimento. O objetivo seria o de facilitar uma infraestrutura que impulsionasse as empresas a desenvolver projetos de novos produtos.

Os autores também explicam a necessidade de medidas de caráter operacional. Dentre elas, as relacionadas à importação de insumos; regulamentação ética; e à manutenção dos recursos humanos formados. A intenção seria a de incrementar as possibilidades desse contexto.

O texto se conclui explicando que um cenário pessimista só aconteceria se ocorresse um retrocesso na direção política de incentivo à inovação e ao CEIS. No entanto, os autores avaliam que é pouco provável que essa situação aconteça.

Acesse a íntegra na área Publicações

Referências

GADELHA, P. et al. (Org.). A saúde no Brasil em 2030: prospecção estratégica do sistema de saúde brasileiro: desenvolvimento produtivo e complexo da saúde. Volume 5. Rio de Janeiro: Fiocruz/Ipea/Ministério da Saúde /Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, 2013.

MARTINS, D. Projetos de pesquisa e inovação superam expectativas. Inova Saúde. Agência Saúde: Portal da Saúde; 2013, Out 03. Disponível em http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saud… Acessado em agosto de 2014.

GADELHA C. O investimento no Complexo Industrial da Saúde e a melhoria das desigualdades em saúde [entrevista na internet]. Recife (PE): Portal DSS Nordeste; 2013, Ago 01. Entrevista concedida a Maira Baracho. Disponível em: http://dssbr.org/site/entrevistas/o-investimento-no-complexo-industrial-da-saude-e-a-melhoria-das-desigualdades-em-saude/ Acessado em agosto de 2014.

Maria Thereza Fortes, Equipe Saúde Amanhã, 25/08/2014

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